Às portas do Jubileu 2025:“Peregrinos da Esperança”
ABERTURA EMRC 2024-25
MACEDO DE CAVALEIROS, 02.10-2024
1.As circunstâncias que vivemos fazem-nos fixar e sublinhar ainda mais a palavra Paz. A Paz, que traduz o termo hebraico shalom, na sua raiz, significa integridade, totalidade, e por isso a Paz, na linguagem bíblica, é a síntese ou a plenitude de todos os bens, é a felicidade de quem, mesmo no meio de lobos e dificuldades, vive em Paz, porque se confia às mãos de Deus, como um filho ao colo de sua mãe.
Essa é a Paz, por que justamente anseia o nosso coração, pois todos os dias acordamos e adormecemos com as imagens das Guerras na Ucrânia e no Médio Oriente a ferirem-nos, ora de raiva, ora de tristeza e de angústia.
A verdadeira Paz é dom de Deus, fruto da ação Espírito Santo, mas também é um exigente trabalho artesanal, “que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza” (GE 89). De pouco nos vale desejar a Paz lá longe, se não a semeamos na nossa escola, em nossa casa, com as pessoas da nossa família e das nossas relações mais próximas.
Como professores e educadores, é nossa missão semearmos, construirmos e espalharmos a Paz. É nossa missão rezarmos com perseverança pela Paz e pela Fraternidade!
2.No contexto em que vivemos, não podemos ser nem pessimistas paralisados, nem otimistas ingénuos, mas sim ativistas, conscientes de que a oração é a arma da esperança e os atos de caridade e gestos de bem são as munições desta arma.
A esperança não é fuga da realidade presente, nem simples otimismo ou pensamento positivo, mas também não poderá ser ilusão anestesiante. O risco é grande, pois a diferença entre estas atitudes pode ser subtil.
Para a fé cristã, a esperança é dom de Deus, ou seja, é o Espírito que concede ao ser humano a graça e a força da esperança[1]. Recorrendo metaforicamente à gramática, dir-se-á que o Espírito Santo faz com que se passe do “substantivo” ao “verbo”, ou seja da esperança ao esperar. Do perdão ao perdoar. Esta passagem é possível como declinação ou expressão da experiência fundamental e originária: do Amor ao amar[2]!
3.A experiência de tantos milhões de seres humanos que se confrontaram e confrontam com a violência mais absurda, remete-nos para as palavras de Maurice Bellet, quando fala do abismo como ausência, como nada, como destruição do humano no homem, de vida como morte, contra-génese, ou contra-nascimento[3]. Pois, segundo Bellet, a grande morte não é a que acontece no fim, mas é tudo o que impede de nascer, pois a prova do “abismo reduz à morte todas as tentativas de intuição e de construção”[4]. Esta violência é o grande assassinato, pois reduz a nada o nascimento e toda a possibilidade de nascer[5].
Há que ter presente, que a essência do mal, que pode ser designado de misterioso, é a destruição: destruição de vidas, de valores, de relações, de futuro e, pelo menos tendencialmente, destruição daquela relação com o Bem – qualquer que seja o seu nome segundo a fé ou a metafísica – que é o fundamento incessante da nossa humanidade. O ser humano, de facto, não é bom por natureza, nem mau, nem ambíguo: é relação com o próprio bem. E relação implica liberdade, história, fragilidade, possibilidade de mal-entendido, angústia curada ou angústia sem amor aceite: elementos obscurecidos quando o mal se torna espetáculo de poder e quando queremos resolver uma delicada questão existencial, antropológica, metafísica e teológica com um rudimentar esquema jurídico[6].
4.Há que recordar a história de Job. Ele “perde” tudo: os bens que tinha, as suas relações, a sua integridade física, a sua visão retributiva do mundo, os seus alicerces representativos de sentido. A sua narrativa é invadida pelo caos, pelo absurdo, tão bem representada pela imagem do diabólico (do grego, diabolon): o que divide, desune, desagrega, desconstrói. Sete dias e sete noites sentado sobre as cinzas da incompreensão. Sem palavras. Todos o têm como impuro. Job sabe-se também inocente de qualquer culpa. Queixa-se do abandono de Deus (Job 19, 2.4-11) e do abandono da comunidade (Job 19, 13-19).
O canto do absurdo de Job continua hoje a ressoar. No século de Auschwitz, em que os campos de concentração se aplicaram a transformar pessoas em corpos sem alma, e estes em cadáveres amontoados ou em cinzas; no século dos massacres do Ruanda, em que milhares de pessoas declararam que os seus vizinhos, amigos e até familiares não podiam continuar a viver; no século do Gulag e de Hiroxima, em que assistimos à tentativa de aniquilamento do sentido da história individual e de toda a humanidade; no nosso século, em que diariamente vemos homens, mulheres e crianças a morrer vítimas dos bombardeamentos na Ucrânia, Médio Oriente e em tantas outras guerras, das águas do mediterrâneo ou no arame farpado dos muros recentemente construídos. Continuamos a aferir, com o mesmo olhar silencioso e surpreendido de Job[7], do que é capaz o ser humano e do que está em causa!
6.O mal do mundo, o mal do ser humano está diante de nós, não para construirmos um aparato explicativo dos fenómenos, mas para ser enfrentado, combatido, erradicado, curado[8]. Assim fez Jesus Cristo! O excesso de mal supera qualquer tentativa de explicação. Devemos aproximar-nos do mistério do mal com o agir responsável. Trata-se de não ter medo de olhar o mal de frente e profundamente[9], sendo necessário reagir, assim, à cultura da banalidade, do lugar-comum, permanecendo vigilantes.
Paul Ricoeur afirma: “Toda a reconciliação espera-se apesar de tudo, apesar do mal. Este apesar de tudo constitui a primeira categoria da esperança, a categoria da mente. Porém não temos provas disso, só sinais; o lugar onde se implanta a dita categoria é uma história, não uma lógica; uma história que deve incessantemente decifrar-se sob o sinal do apesar de…e passe a ser graças a…; o princípio das coisas faz o bem com o mal”[10] .
O mal destruidor, absurdo e impedidor de esperança e de futuro é vencido por Jesus Cristo. Os Evangelhos narram-nos a atividade de Jesus, que cura, restitui a capacidade de ver e de ouvir, abre a via de uma saúde completa, ao ponto de poder ser chamada bem-aventurança e salvação[11].
Ao oferecerem hospitalidade os discípulos de Emaús mostram um sinal de que começou a cura no seu coração. Algo foi restaurado na sua humanidade, são capazes de um gesto de amor concreto. Foram resgatados a uma espécie de morte e estão de novo em condições de ajudar a construir o círculo do amor.
7.A fé cristã pode ser um caminho importante de construção ou reconstrução de sentido da vida, na medida em que contribuir para o aumento de quantos descobrem um para quê na vida, favorecendo um desenvolvimento humano, através do aprofundamento do significado e das razões profundas da existência. É importante sublinhar que a conceção antropológica cristã merece uma particular atenção pela sua originalidade: mesmo acolhendo os dados positivos imersos na história do pensamento ocidental, ela exprime uma ideia nova de homem e de humanidade, inspirada teologicamente e baseada sobre a afirmação bíblica “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26), fundada sobre a conceção de um Deus pessoal, revelado e testemunhado por Jesus Cristo.
Envia-nos, Senhor, o Teu Espírito!…
Que Ele queime as portas que nos fecham
nas salas da nossa tranquila piedade;
varra dos nossos olhos a tibieza que enfraquece os nossos dias;
assobie nas janelas por onde não queremos deixar passar a voz da rua.
Envia-nos, Senhor, o Teu Espírito!…
Que Ele nos dê a coragem de saltar fronteiras;
nos incomode nos sítios e modos onde queremos ficar;
nos faça capazes da escuta e testemunhas fiéis do Evangelho.
Concede-nos, com o Teu Espírito, a sabedoria que Te distingue, o entendimento que se extasia, o conselho que aperfeiçoa, a ciência que Te procura, a piedade que Te ama e o temor de Te perder.Amen
(Con. João Aguiar)
Como Maria deixemo-nos tocar pelo fogo do Espírito Santo! Queiramos todos ser ateados por esta chama viva de Deus! Rezemos sempre, por isso, com persistente ousadia, no secreto murmúrio dos nossos corações: Vinde, Espírito Santo! Acendei em nós o fogo do vosso amor!
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda
[1] Cf. J. Haers, [et.alt.], Editorial. Riconciliazione: la forza della grazia, in “Concilium” 1 (2013) pp. 13-17.
Revista fruto do colóquio da “Concilium” sobre a “Reconciliação: a força da graça”, que decorreu em Lovaina, Bélgica, em Maio de 2012. Sugere uma conexão entre: reconciliação, empowerment e graça. “Empowerment” – termo técnico também usado no âmbito latino, indica em geral um processo de melhoramento que pode explicar-se quer em termos psicológicos, organizativos e político-sociais. Indivíduos e comunidades conquistam – graças a uma ação de empowerment – autodeterminação, autoestima, consciência do próprio potencial, fazendo emergir recursos pessoais latentes ou mudando para melhor o ambiente social e político. Empowerment – precede e acompanha a reconciliação.
Foram focados e são apresentados neste número de “Concilium” quatro importantes perspetivas nos processos de reconciliação: a criatividade, as feridas, a justiça e as diversidades.
[2] Há que ter em conta a advertência interrogativa de J. Pieper: pode corresponder ao termo “amor” “um arquipélago de sentidos e significados profundamente diversos.”- J. Pieper, Sull’Amore, Morcelliana, Brescia, 20122, p. 5. Tendo em conta estas palavras, ganha ainda mais relevo a obra de Von Balthasar.
[3] M. Bellet, Le Dieu Sauvage. Pour une foi critique, Paris, Bayard, 2007, p. 56.
[4] M. Bellet, Le Dieu Sauvage, p. 56.
[5] Cf. M. Bellet, Le Dieu Sauvage, p. 60.
[6] Cf. R. Mancini, La responsabilità come risveglio e metodo, p. 392.
[7] A. Couto, Uma palavra é melhor do que um presente, pp. 187-188.
[8] Na mesma linha se situa V. Frankl, E. Levinas e P. Ricouer: Emmanuel Levinas com uma incisiva e eficaz expressão escreveu que “o mal não exige explicação, mas iniciativa moral”, afirmando a própria identidade do ser humano a partir da responsabilidade por outrem, perante o seu rostoCf. E. Levinas, Totalidade e Infinito, Lisboa, Ed. 70, 1988, pp. 167-194; E. Levinas, Ética e Infinito. Diálogos com Philipe Nemo, Lisboa, Ed. 70, 1988, pp. 92-93.
Também Paul Ricoeur fala de “luta ética e política contra o mal a qual pode reunir todos os homens de boa vontade”- P. Ricouer, O mal um desafio para a filosofia e para a teologia, p. 34.
[9] Como fez Dostoijevski que desceu aos abismos do mal. A idade moderna retoma integralmente o raciocínio de Epicuro, da impossibilidade de conciliar a existência de Deus com o mal, proclamando-se ateia, ou pelo menos agnóstica. A sua grande tentativa, depois da crise das doutrinas morais fundadas sobre as religiões positivas, foi a de construir uma moral, juízo de bem e de mal, prescindindo do problema da existência de Deus. Kant foi o grande profeta desta tentativa de apresentar a existência de Deus como postulado da razão prática. Cf. E. Kant, Crítica da Razão Prática, Lisboa: Ed. 70, 1994, pp. 143-151.
[10] P. Ricoeur, De l’interpretation. Essai sur Freud, Paris, Ed. Seuil, 1965, p. 507. Paul Ricoeur cita o provérbio português “Deus escreve direito por linhas tortas”. São Paulo tinha escrito que “onde abundou o pecado superabundou a graça”. ‘apesar de…’, ‘graças a…’ ‘quanto mais…’. “Todos os símbolos nos fazem pensar, porém os símbolos do mal fazem-nos ver de forma exemplar que nos mitos e nos símbolos há sempre mais que em toda a nossa filosofia e que uma interpretação filosófica dos símbolos jamais se converterá em conhecimento absoluto” – p. 506.
[11] Cf. R. Mancini, La responsabilità come risveglio e metodo, p. 393.